..1..a sós
Sentiu-se tomada por um silêncio cavado, destes que nos colocam em estado de solidão. Fechou os olhos, no esforço de compreender, e aceitou que tal silêncio era preciso: era preciso entrar numa solidão como aquela para estar a sós consigo mesma. Não sabia por onde começar. Percebeu que estava longe de atingir a humanidade necessária para renunciar à solidão. Com receio de abrir os olhos, permitiu-se o consolo do próprio limite, mantendo-se a salvo de mãos que não eram suas. Depois do quê, dedicou-se muito mais aos sentidos; muito menos a sentir. Não acreditava no amor. Aliás, era também necessária muita humanidade para acreditar no amor. E ela não dispunha intenção, ou coragem, ou maneiras, de obtê-la.
fernanda.v (+)
..2..entre quindins e insônia
dentre as maiores reclamações: caligrafia feia, remelas eternas, manco, insone. à nara, os quatro itens eram importantes como lhe eram caras as sapatilhas. gostava de andré, mas não lembrava de o afeto superar tudo. e, ora, por que mesmo? o afeto era efêmero tanto quanto eram perenes as remelas. no momento da última conversa, nara utilizou os dedos para ajudar na enumeração do que lhe era inegociável. andré sorriu, beijou-lhe a testa, pagou um quindim e se foi. nara achou ofensivo que ele sugerisse gordurinhas extras, jogou o doce na lixeira e saiu da confeitaria; o sol fez brilhar o verniz das sapatilhas e ela sorriu pensando que escolhera uma combinação perfeita para a ocasião.
f.dutra (+)
..3.. bonito, você, sr.
- Credo, que asco
- ?
E foi-se. Sem saber o porquê, ofendeu-me, credo. Asco de você, taturaína. Não, tinhas razão, que feio. Cheia de vírgulas e pontos e tremas, que agonia jornalística! Lê-me ontem, naquela madrugada de 2003, deprimida entre neosaldinas e coca-colas, tão criativa e tão sem pontos! Asco, sim. De hoje e amanhã. “‘Ugh”, “ugh”, “ugh”! Uma onda cinza se espalha no peito, tira o ar, faz o corpo contorcer-se de nojo, levantar-se num impulso só. Que asco, que quê. Faz-me um favor, ofenda-me sempre que me vires assim, cheia de vírgulas e pontos e tremas. Era eu uma borboletinha estrábica, quatrolho e esquálida – mas era feliz, ah, se era. As palavras corriam soltas, sem conjugação correta às vezes. A sintaxe, à p*-que-p*, mandava-a. O sentido, este sim tinha sentido. Hoje, são, tantas, vírgulas, que, nem, sei, mais. F*-se o ponto, f*-se a vírgula, f*-se o ponto-e-vírgula! Quero escrever, sem cinzas e asco. Vomitar significantes, entorpecer (ou des-) a filosofia particular – meu travesseiro. Leia-me, leia-me. “Ugh!”. Credo, que asco.
juliana.s..(+)
..4.. a little bit drunk
ah, eu tava meio pra baixo na nova amsterdam, dando uma encarada naquela loira e sr. jones puxou um papo com a morena – dançarina de flamenco. muito muito bonita, dança enquato papai toca guitarra. sr, queria ser bonito. vem cá dançar no silêncio da manhã.
hahhaha cai fora, maria! me ensina um pouco dessa tua dança! sim sim, mas peraí. passa uma garrafa aí, sr. jones. vai, acredita em mim, me ajuda a crer em alguma coisa porque eu quero ser um cara que acredita, sabe?
eu e o sr. jones contamos uns contos de fadas um pro outro. olha lá aquela gata! “tá olhando pra ti. não, não é pra mim!!!” sorrindo, e tá tudo brilhando! ha! quando todo mundo te ama é difícil ficar sozinho… rsrsrs
beleza, eu vou pintar um quadro de mim mesmo, eu em azul e em vermelho e em pretro e em cinza. todas as cores bonitas e significativas! mas, bem, tu sabe que minha cor favorita é cinza. me senti meio… simbólico ontem…. se seu conhecesse picasso, compraria um violão (cinza) e tocaria!
eu e o sr. jones olhamos pro futuro, para aquela garota linda! “tá olhando pra ti. não, não é pra mim”. ali, apoiada no refletor. comprei um violão (cinza). é, quando todo mundo te ama é foda ficar sozinho! rsrs
cara, quero ser um leão, todo mundo quer se passar de gatinho… todo mundo aqui quer ser muito famoso, mas temos motivos diferentes pra isso… acredite em mim porque eu não acredito em nada e eu quero ser um cara que acredita, poxa, eu quero!
eu e o sr. jones tropeçamos aí pelo bairro. sim, claro, olhamos pra mulheres bonitas. “ela é perfeita pra ti. deve haver alguma perfeita pra mim”. quero ser bob dylan. sr. jones queria ser mais na dele. quando todo mundo te ama, filho, as coisas ficam mais ou menos assim…
eu e o sr. jones olhamos pra tv. quando faço isso, dá vontade de me ver olhando pra mim. todo mundo aqui quer ser muito famoso, mas não sabemos porque, nem como. mas, quando todo mundo te ama, é fácil ficar o mais feliz possível.
eu e o sr. jones vamos ser muito famosos.
mauricio.t. (+)
..5.. fernanda
A perna direita balançando ininterruptamente. O olhar demonstra tédio. A boca se abre em um bocejo. Impaciência.
baixa as mãos, tira algo da bolsa. O celular.Que horas são? Ainda? Outro bocejo. Volta a mexer na bolsa. Aula chata? Pega um papel, vira, olha, lê. É o programa de ensino.usa vermelha com flores e folhas brancas. Guarda o papel. Não entra na bolsa. Tenta de novo. Consegue. O celular. Avançou pouco tempo desde a última espiada. olhar longe. Distante da sala de aula, afastado do professor barbado, que fala, fala, e fala. caneta vermelha sobre um caderninho. Não é tocada já faz alguns minutos. O professor fala, fala e fala. Nada para anotar.lguém chega. Abre a porta. Entra na sala. Beicinho. Olhos petrificados. Alguma idéia? Pisca uma, duas, três vezes. Olhadela para o professor. bolsa sobre as coxas. Apóia a cabeça na mão direita. Pára. … Pega a caneta vermelha. Faz um risquinho no caderno. Uma flor, talvez? Olha de novo no celular para ver as horas. E aula continua…
p.santos. (+)
..6.. brincadeira das palavras escondidas
fotografiasconfissõescafésjornalismosfrustraçoesgritosinsôniasidéiasneologismos
carolina.m. (+)