Passando por Congonhas em clima de acidente aéreo…
Camila Chiodi, especial pro “blog da redação”
20 de julho de 2007. Três dias após o acidente com o avião da TAM no aeroporto de Congonhas, em São Paulo. Para a minha sorte, a passagem (da TAM) que eu já tinha comprado há mais de duas semanas, indica que o trajeto da viagem é o seguinte: Florianópolis > São Paulo (Congonhas) > Belo Horizonte / terra natal.
De acordo com um atendente da TAM, o avião que deveria sair do Aeroporto Internacional Hercílio Luz às 10h30, só deve chegar por volta de 12h15. O aeroporto está cheio, a ver pelas cadeiras ocupadas e lanchonetes também quase sem lugares para sentar – apesar de as filas de check in estarem tranqüilas.
Ficar tanto tempo assim no aeroporto de Florianópolis me faz perceber o quanto ele é mal preparado. Ainda bem que estou munida de livros e revistas. Vejo pessoas ouvindo música, lendo jornais ou apelando para o jogo de lógica Sudoku, enquanto esperam pelos seus vôos. A minha busca por pilhas para o discman (sim, eu sou paleolítica) é em vão. Assim como a procura por uma televisão que me mostre alguma coisa do PAN.
Neste momento vejo uma equipe de três pessoas da RBS se preparando para entrar ao vivo no Jornal do Meio Dia. A repórter ensaia: “um dia antes do acidente em Congonhas, uma ocorrência semelhante foi registrada no aeroporto de Florianópolis, e ontem o comandante de uma aeronave passou mal e teve que ser substituído”. Não ouço chamadas de embarque. Da janela de onde normalmente podem ser vistos aviões aterrissando, hoje o que se tem é apenas uma pista vazia com bandeiras. Bandeiras do Brasil, de Santa Catarina e da Infraero a meio mastro, em sinal de luto pelas vítimas da tragédia de terça-feira.
Quase uma hora depois, uma surpresa: o vôo 3102 está confirmado – para as 13h15. Entro na sala de embarque por volta das 13h20 e encontro uma televisão! O Jornal Hoje mostra as medalhas que o Brasil conquistou durante a manhã nos Jogos Panamericanos, e dá a notícia de que Antônio Carlos Magalhães morreu às 11h40 da manhã. Parece que o Brasil está mesmo de cabeça pra baixo. Finalmente, às 13h45, entro no avião. Poltrona 13A, na janela, ao lado de uma saída de emergência. A única real vantagem desse lugar é ter mais espaço para esticar as pernas. Um comissário de bordo ainda “confisca” minha bolsa (incluindo meu bloquinho), porque não podemos ficar com bagagens de mão próximo à tal saída de emergência…
O comandante de vôo começa a falar. Diz que todos estão de luto e não têm nem palavras para expressar aquilo por que a TAM tem passado nos últimos dias. Garante que o avião não levantaria vôo se não houvesse a certeza de que tudo correria bem. Ele ainda aproveita para nos alertar a respeito da cobertura que a mídia vem fazendo do acidente, e que não podemos pensar que tudo o que é publicado corresponde à verdade.
O vôo realmente é tranqüilo, e durante toda a viagem ouço Beatles no canal 3 do avião. Mas como sempre, o mundo não tem consideração pelos vegetarianos, e eu não posso comer o lanche servido a bordo; me contento com um saquinho de amendoim salgado. Admito que fico tensa na hora de pousar em Congonhas, o que, vá lá!, não é nem um pouco de se estranhar. O local do acidente só vejo bem de longe, e consigo identificar apenas a fumaça que ainda sai do prédio atingido.
Depois de passar pela fila do raio x, descubro que meu vôo para BH também está atrasado, é claro. Deveria sair às 15h35, e ainda não há previsão de quando o avião vai chegar no aeroporto! Ao anunciar os atrasos, fazem questão de falar que é “por razões meteorológicas”, por causa do fechamento do aeroporto pela manhã. E com mais esse atraso, me vejo na terrível e nunca antes imaginada situação de ter que pagar R$ 2,80 por um pão de queijo minúsculo e nem tão bom assim. Sinto saudades de casa…
Já acostumada com a idéia de esperar, ouço de repente uma chamada de “embarque imediato do vôo 3222 para Belo Horizonte”, e minha pobre mente ingênua chega a acreditar que tudo estava resolvido. Um ônibus leva os passageiros até o avião. Depois de devidamente instalados e esperando já há mais de 20 minutos, o aviso de que ainda teremos que esperar meia hora para levantar vôo – porque a Polícia Federal está apurando as causas do acidente no aeroporto – acaba com as minhas últimas esperanças. Na entrada do avião, uma comissária de bordo entrega um papel em que estão escritas as considerações da TAM sobre o acidente e o momento vivido pelo Brasil inteiro naquela semana.
Paciência esgotada, decolagem autorizada. E de novo uma viagem tranqüila, sem surpresas desagradáveis de qualquer tipo. Chego em Belo Horizonte por volta das 18h40. Encontro meus pais, irmã e uma tia que me esperam, aliviados ao ver que eu cheguei bem. Tudo parece não ter passado de mais um dia que – apesar de o choque do acidente ainda ser tão recente – já é comum nos aeroportos brasileiros. Fui só mais uma entre milhares de pessoas que se viram indignadas, mas impotentes, perdidas e com medo de – mais do que não chegar em casa no horário previsto – não chegar em casa de jeito nenhum. A volta promete…

